Myrddin e Lailoken — um breve estudo sobre o Merlin do folclore Arturiano.

Não foi muito tempo atrás que Walt Disney (com a ajuda de T.H White) padronizava a figura do velho mago Merlin em nossas lembranças de infância, com seus muitos poderes de premonição, metamorfose e a formidável incumbencia de transformar o jovem Arthur no maior rei da Grã-Bretanha medieval. A imagem do feiticeiro poderoso não foi apenas explorada no filme “A espada era a lei”, mas também usada por Tolkien (que conhecia muito bem a mitologia Arturiana) em seu Gandalf, J.K. Rowling em seu Dumbledore, e mais diretamente C.S. Lewis no personagem de Merlin Ambrosius. Os exemplos são muitos, e parece que o arquétipo de toda fantasia contemporânea, onde quer que exista um mago bondoso com a tarefa imprescindível de fazer o mundo melhor, ele deve ter algumas características de Merlin. 

A associação da figura de Merlin ao folclore Arturiano vem junto de Geoffrey de Monmouth e a Historia Regum Britanniae (ca.1138), mas como veremos no final deste post, apesar de estar do lado do bem, as ações de Merlin não foram sempre destituídas de crueldade. Antes de entrar na história como é contada na literatura Arturiana, entretanto, quero primeiramente traçar uma linha das muitas figuras de Merlin no folclore europeu antes mesmo de ser associada ao rei Arthur. 

O personagem principalmente relacionado a Merlin é o Myrddin do folclore galês, um homem que enlouqueceu após a batalha de Arfderydd. Nós não temos a lenda completa de Myrddin, mas segundo o estudo de A.O.H. Jarman, em The Merlin Legend and The Wesh Tradition of Prophecy (University of Wales Press, 1991) podemos ter uma ideia geral de seu conteúdo em um número grande de alusões encontradas em outros textos medievais. Em uma primeiro poema, Yr Afallennau, Myrddin fala de sua árvore de maçãs doces (a árvore de maça é um elemento comum na tradição celta associada ao divino, e muitas vezes marca a entrada ao “outro mundo”) que cresce nas margens de um desfiladeiro, ou de um rio, ou escondida em um bosque. Ele declara que depois da queda de Gwenddolau (a quem era vassalo) na batalha de Arfderydd, ele enlouqueceu e passou a viver sozinho na floresta durante cinquenta anos. Ele também menciona que pelos poderes mágicos do pé de maçã ele consegue esconder uma corrente de ouro, pela qual os lordes da região o perseguem. Um outro poema menciona que Myrddin passou seu exílio na floresta acompanhado de um pequeno porco de estimação, ainda temendo os homens da região, e com um certo humor, diz que o porquinho é um companheiro rude para se dividir a cama, pois tem unhas pontiagudas. Uma obra chamada Cyfoesi fala sobre diversas profecias que Myrddin declara para sua irmã. 

Uma outra figura, esta vinda do folclore escocês, que pode ter sido um personagem histórico e também serviu de inspiração para o Merlin de Geoffrey de Monmouth, é Lailoken. Sua presença é mencionada na vida de St. Kentigern (São Mungo), padroeiro da Escócia. Assim como Myrddin, Lailoken era um homem que vivia na floresta e profetizou a morte do rei e de outros homens importantes na região. Ele é descrito como um homem nu e cabeludo que o Santo conheceu enquanto rezava sozinho na floresta, e apesar de louco era um profeta extraordinário. Lailoken reconhece sua condição deplorável, mas a aceita dizendo que por sua causa tantos homens morreram na batalha de Cumbria (ca. 575 D.C, respectiva a batalha de Arfderydd na história de Myrddin). Na batalha, é dito que o céu se abriu para Lailoken e uma voz disse que por ele ser responsável pelo derramamento de sangue, deveria suportar a punição dos pecados de todos. Até o dia que ele morresse, quando sua alma fosse levada pelo Diabo, ele viveria entre as árvores. 

Apesar de tantas semelhanças, A.O.H Jarman afirma que eles são duas figuras separadas já consolidadas no folclore galês e escocês antes mesmo da associação que ocorreu pós-Geoffrey.  

Vale mencionar que a Irlanda também tem sua tradição do profeta louco na floresta, ele é chamado na literatura de gelt, e sua condição geltacht. O mais proeminente dos gelt na tradição irlandesa é Suibhne, filho de Colman Cuar, um lendário cavaleiro de Ulster. Dois textos (The Feast of Dún na nGéd, e The Battle of Moira) relatam que Congal Claen, rei de Ulster, se rebelou contra o rei superior, e foi derrotado por ele. Durante a batalha, Suibhne, vassalo de Congal fica louco e foge para a floresta. Suibhne também é dotado de visões e poderes de profecia, mas além disso ele pode levitar, e ao ficar maluco durante a batalha, levitou até uma árvore de teixo e passou grande parte de sua vida no topo de árvores.  

Agora chegamos a Geoffrey de Monmouth e sua Historia Regum Britanniae (ca.1138). O intuito dele era compor um documento com a história da Grã-Bretanha, desde o tempo de Brutus até o reinado e conquista do Rei Arthur no começo do século VI. É de Geoffrey de Monmouth que a maioria da tradição Arturiana que viria séculos depois deriva. Um pouco antes de falar sobre Rei Arthur ele conta a história de Vortigern, um rei que durante a metade do século V fugiu dos saxões. Vortigern desejava construir uma torre, mas a torre caia sempre que era erguida. Os magos de Vortigern dizem que a torre precisava ser banhada do sangue de uma criança sem pai. Tal criança, chamada Merlin, foi descoberta em Carmarthen. Sua mãe era filha do rei de Dyfed que vivia em um convento e engravidou de um demônio. Quando o garoto foi trazido a Vortigern ele contradiz seus magos afirmando que a torre não fica de pé pois debaixo da terra existe uma caverna onde ficam dois dragões, um vermelho e um branco, que brigam constantemente. Merlin, cujo nome dado aqui é Ambrosius Merlinus, explica que os dois dragões representam os saxões e os povos da Inglaterra. Ele então revela diversas profecias a Vortigern e passa a ser um de seus conselheiros. 

Este conto não foi produto da imaginação de Geoffrey, ele consta na Historia Brittonum de Nennius (ca. 828 D.C), mas diferente de Geoffrey, o garoto sem pai era chamado apenas de Ambrosius, e o nome faz alusão a Ambrosius Aurelianus, um rei que governou também no tempo de Vortigern.

Geoffrey adiciona profecias na história, fazendo com que Merlin diga que Vortigern seria derrotado por seus inimigos. Merlin também remove as pedras de Stonehenge da Irlanda e as coloca em Salisbury Plain, possibilita a concepção de Rei Arthur colocando um disfarce em Uther Pendragon para que ele durma com a esposa do duque que acaba de ser morto em batalha, Igraine. Esses eventos nada se parecem com a tradição de Myrddin e Lailoken, mas posteriormente Geoffrey (provavelmente com mais conhecimento sobre os mitos) tenta retratá-lo em um trabalho chamado Vita Merlini (ca. 1150) completamente de acordo com a tradição galesa do profeta que vive na floresta. Apesar disso, ele não admite o erro e insiste em chamá-los ambos de Merlin. 

Tais adições na história de Myrddin e Lailoken fazem com que Merlin se transforme no grande profeta que conhecemos hoje. Já no século XV, em “A morte de Arthur” de Sir Thomas Malory, o compilado medieval mais bem conhecido de lendas Arturianas, Merlin exerce diferentes papéis, desde o tradicional, ajudando na concepção do Rei Arthur e fazendo profecias, até os episódios que vieram do ciclo Vulgate e que conhecemos hoje como; a espada na pedra, o romance com Nimue ou Viviane, e tornando-se conselheiro de Arthur.  Em um episódio cruel Merlin sugere que Arthur coloque centenas de bebês do reino em um navio e os abandone no mar, para assim se livrar de Mordred. O plano é realizado, como uma das facetas mais obscuras do reinado de Arthur, mas Mordred sobrevive. A morte de Merlin, é também retratada por Malory. Merlin se apaixona por Nimue/Viviane e quer de todas as maneiras dormir com ela, mas ela se recusa e enquanto isso aprende toda a magia que consegue de Merlin e o faz prometer que jamais usaria nenhuma magia contra ela. Quando Nimue/Viviane finalmente aceita o romance, diz para que se encontrem em um local, pois irão viajar e passar a viver juntos. Merlin sabe que ela vai aprisioná-lo, mas mesmo assim vai. Ela então o leva para uma caverna e o prende ali, onde ele morre.


Fontes: The New Arthurian Encyclopedia (Garland, 1996)

The Merlin Legend and The Wesh Tradition of Prophecy, A.O.H. Jarman (The Arthur of the Welsh, University of Wales Press, 1991)

Publicado por ftrossi

Formada em moda, F.T.Rossi trabalhou por anos no mercado de Assessoria de Imprensa e Editorial antes de se mudar com a família para os Estados Unidos. Hoje divide seu tempo entre literatura medieval, jardinagem e escrita.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: